O Carnaval sempre foi mais do que uma festa.

Ele é um estado de espírito.

Um convite coletivo para sair do cinza, do automático, do “mais do mesmo”. Quando o calendário vira fevereiro, algo dentro da gente pede cor.

Pede excesso.

Pede brilho — mas não qualquer brilho: aquele que vem de dentro e transborda pra pele. Antes mesmo da indústria, antes das embalagens, antes do espelho iluminado do banheiro, as cores já existiam como ritual.

Povos ancestrais usavam pigmentos naturais para marcar celebrações, proteger o corpo, contar histórias e afirmar identidades.

Pintar o corpo sempre foi um gesto simbólico: de pertencimento, de força, de alegria. No Carnaval, essa memória desperta.

As cores naturais — vindas da terra, das sementes, das plantas — têm algo que as cores artificiais não conseguem reproduzir: elas dialogam com o corpo. Não cobrem. Revelam. Não mascaram. Acompanham. Pigmentos naturais respeitam a pele, o tempo e o ritmo de quem usa. Quando escolhemos uma maquiagem natural, estamos escolhendo mais do que estética.

Estamos escolhendo um tipo de relação com o nosso corpo. Uma relação menos agressiva, mais consciente, mais afetiva. É cor que trata enquanto colore.

É beleza que não exige sacrifício.

No Carnaval, essa escolha fica ainda mais potente. Porque é justamente no exagero da festa que o cuidado se torna um ato político. Pintar o rosto com pigmentos naturais é dizer que dá, sim, pra celebrar sem agredir. Dá pra brilhar sem intoxicar. Dá pra viver o excesso com responsabilidade. As cores do Carnaval não precisam ser sintéticas para serem intensas.

O vermelho do urucum, os tons terrosos, os rosas, os laranjas, os dourados naturais carregam história, calor e verdade.

São cores que não gritam — elas vibram. Talvez por isso o Carnaval combine tanto com a maquiagem natural: ambos falam de liberdade. Liberdade de ser quem se é.

Liberdade de escolher o que toca a pele. Liberdade de transformar o ato de se maquiar em um pequeno ritual de autocuidado. No fim das contas, pintar o corpo no Carnaval é lembrar que ele é território sagrado.

E que toda cor, quando nasce da natureza, carrega consigo um pouco de cura.

Que este Carnaval seja assim:

colorido, consciente e profundamente vivo.